O sedentário

Dizer que Armandinho não era muito chegado em esportes não passava de uma maneira sutil de dizer que ele não era chegado em nada que exigisse esforço físico.

Ao longo dos vinte anos que a vida lhe consumira, suas atividades se resumiam a partidas disputadíssimas de vídeo game, corridas contra vírus de sites de jogos online na internet e arremesso de papel amassado no lixo, pois se recusava a levantar e a dar três passos até a lixeira. Aventurou-se certa vez no xadrez, mas não por muito tempo. Dizia que cansava.

– Você precisa se exercitar, fazer alguma coisa! – ralhava a mãe, inconformada com a ociosidade do filho – Menino da sua idade não fica parado assim em casa!

Armandinho não se importava. Era feliz assim. Sua palidez nunca o incomodou, tampouco a magreza chupinhada. Mas havia quem encontrasse ressalvas:

– Gente, que menino estranho…

– Olha isso…

– Parece uma vela…

De fato não era uma figura bonita. As roupas largas não delineavam o quase nada de seu corpo, que sumia entre os panos. Um verdadeiro filé de borboleta.

– Filho – puxou assunto a mãe, dona Leila, certa vez, enquanto Armandinho jogava game-boy – A mamãe está preocupada com você…

– De novo esse assunto? – respondeu, sem tirar os olhos da tela. Estava quase passando de fase.

– Querido, você tem vinte anos. É quase um adulto! E vive nesse seu mundinho de faz de conta!

– Não é de faz de conta. É bem real.

– Você mal sai de casa – disse em tom de desabafo, olhando para o chão como se o filho não tivesse dito nada – Vai pra faculdade atrasado e volta cedo demais. Você não namora, não passeia, não tem turma…

– Tá bom, mãe…

– Você não se exercita! Olha só pra você! – disse, chateada. Armandinho chegou a erguer os olhos – É magérrimo! Isso não é saudável… Quando está de frente parece que está de lado e quando está de lado parece que sumiu…

– Ok, mãe, já deu.

– Eu decidi inscrever você na academia aqui do bairro – falou de supetão.

– Quê?! – respondeu Armandinho, atônito.

– Isso mesmo que você ouviu.

– Você só pode estar de brincadeira…!

– Não, é verdade – Dona Leila estava eufórica.

– Vai jogar dinheiro fora, porque eu não vou.

– Filho…

– Não vou! Não vou mesmo!

*

Quando se apresentou na recepção da Flash Power, a atendente o encaminhou diretamente a um sujeito que Armandinho jurou já ter visto em algum programa de luta livre.

– Tudo bem, rapaz? – perguntou o homem – Você que é o Armandinho? – emendou antes que o garoto tivesse a oportunidade de responder.

– Sim, sou eu – falou, ressabiado.

– Prazer, sou o Paulão – disse ao estender o braço e triturar a mão do garoto com o aperto – Sua mãe falou ontem comigo. Disse que você nunca malhou antes, não é?

– É…

– Dá pra perceber – deu uma risada rasgada e bateu no ombro de Armandinho, que por pouco não caiu – Vamos logo. Teremos muito trabalho pela frente.

Armandinho o acompanhou em direção a ala de alongamento para, logo em seguida, seguir as orientações de Paulão e se aquecer.

Desengonçado, imitava tudo o que o professor fazia. Ou pelo menos tentava.

Sua limitação era tamanha que nem as pernas conseguia esticar sem sentir dor. Paulão o ajudava, mas a falta de prática lhe rasgava os músculos.

– Aaai!

– Bora! – dizia – Caracas, você é totalmente travado – forçou mais.

Armandinho gritou mais alto e ficou aliviado quando o alongamento cessou.

– Esta aqui é a Leg Press – disse Paulão ao se fixar ao lado de uma máquina – Vamos malhar essas pernocas de vareta.

O professor deitou na máquina e ergueu as pernas para cima, empurrando o peso contrário ao corpo. Armandinho olhou os movimentos de repetição e tentou logo em seguida. Em vão.

– Eu…não…é…muitodifícil – disparou – Nossa…

– Pelo amor de Deus, moleque, não tem nem cinco quilos em cada perna!

– Pra você é fácil – disse já todo suado. Sua brancura ardia de vermelho.

– Eu… Ah, oi, Cris! – atrapalhou-se Paulão, ao cumprimentar uma moça que aparecera – Esse aqui é o Armandinho, aluno novo.

– Prazer.

Armandinho não soube se chegou a retribuir a gentileza. Sua fala ficou presa na garganta e o único som que emitiu poderia facilmente ser confundido com um arroto. Notou o rosto de constrangimento de Paulão e da tal Cris, que se olharam com o canto de olho para, em seguida, voltarem a conversar.

O que era aquilo?! Armandinho já vira mulheres bonitas na vida, principalmente em bancas de jornal. Mas não como a que acabara de se apresentar.

Que corpo fantástico! Os cabelos lisos e negros só não escorriam pelas costas praticamente descobertas pois eram presos em um rabo de cavalo. Envolviam um rosto redondo, de nariz pequeno e pontudinho, pintado por um par de olhos azuis brilhantes. Armandinho percebeu que estava de boca aberta quando sentiu a própria baba escorrer pelo queixo.

Ela apoiou o corpo na máquina a sua frente e empinou o traseiro caprichosamente bem modelado, envolvido por uma calça branca e justa. Armandinho estava, sem dúvida, hipnotizado.

Paulão a deixou e partiu para outro canto da academia, esquecendo que Armandinho não fazia ideia de como prosseguir sem ajuda.

Cris esticou o corpo, abaixando-o logo em seguida. Grudou os seios fartos nas pernas torneadas sem perceber que, à suas costas, Armandinho a encarava de uma maneira como ele nunca chegou a encarar ninguém.

Repentinamente, Armandinho travou. Percebeu o que estava acontecendo, o que poderia ser extremamente visível e constrangedor caso alguém o olhasse com mais atenção. Olhou para baixo. Assustou-se.

– Droga! – ralhou entre os dentes.

Cravou as unhas no estofado do aparelho e virou o rosto perplexo para a parede. Não era possível! Não era hora nem lugar para acontecer aquilo.

– Vamos lá, concentra…! – seu corpo suava.

Fechou os olhos e começou a pensar em coisas ruins. Vômitos? Gente morta? O Pulso, do Arnaldo Antunes? Sua avó de biquíni fio dental? Programas de auditório? Nada!

Uma senhora passou e o olhou. Armandinho cruzou as pernas de maneira robótica e automática. Sentiu dor. O joelho bateu onde não deveria bater. Virou o rosto novamente.

Cris estava sobre um colchonete. De quatro. Com a testa encostada no chão, erguia e abaixava a perna esquerda presa a uma tornozeleira de sete quilos.

– Inferno! – resmungou.

Virou o rosto para a esquerda e viu Paulão se aproximar. Ele andava decidido. Talvez tivesse se lembrado que um aluno o esperava. Armandinho olhou para baixo. Não tinha como esconder. Curvou-se.

– Que tá fazendo? – perguntou o professor, visivelmente confuso.

– Nada – respondeu engasgado, a voz abafada pelo joelho – Gosto de ficar assim.

– Desse jeito?

– Aham…

– Vai, levanta logo daí…

– Eu… Estou… É… Me alongando.

– Não é assim que se alonga! – disse, apanhando o garoto pelo braço e erguendo-o – E você já se alon…

Paulão balbuciou, e Armandinho percebeu o porquê. Não teve como disfarçar. Olhou para baixo e, em seguida, para o professor que o vidrava espantado. Girou o rosto para o lado e pousou os olhos em Cris. Retornou a olhar Paulão, que já o havia largado.

Aproveitou a deixa e correu como nunca correu antes, decidido a nunca mais pisar na Flash Power. Malhação agora só em casa. E somente os braços.

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