Tortas

 

Já eram famosas. De longe.

Não havia uma pessoa que nunca tivesse ouvido falar das tortas de Elisângela. Ou melhor, das de sua mãe.

Quando pequena, na escola, não era rodeada de amigos. Bastou uma torta no recreio para tornar-se popular.

A fama era gigante:

– É o seguinte, garota. Isso aqui é um assalto, tô armado. Não olhe para trás. É só passar as tortas. Vai!

Cresceu assim. E de todos os modos: para cima e para os lados.

Cada vez mais gorda, aprendeu sozinha a receita secreta de sua mãe e passou a saciar seu vício inquietante por conta própria. Duas, três, até quatro em um só dia.

Ficou mais velha. Subiu na vida. A moeda de troca? As tortas.

– Qual é a cinco? Vai, qual é a cinco?!

– Não posso falar!

– Eu te dou uma torta.

– C.

E assim seguiu.

O primeiro beijo:

– Quer ficar comigo?

– Não.

– Eu te dou uma torta.

O primeiro emprego:

– Sinto muito Elisângela, mas você… O que é isso?

– Torta. Para você, pela oportunidade.

– Ah sim, obrigado. Mas veja bem…

– Experimente, por favor.

– (smack)…Hum…Huuuuuuuuuuuuuuuuum! Que maravilha! Você quem fez?

– Isso… O que o senhor ia dizer, mesmo?

– Ah, nada. Comece amanhã.

Sempre bem relacionada, Elisângela transformou-se em um fenômeno. Alguns a chamavam de gênio.

Não demorou a casar-se com um glutão, tão gordo quanto ela.

Era uma farra. Tortas, tortas e mais tortas. Viraram obesos.

– Elisângela, quero mais!

Mulher exemplar, sua felicidade era a típica alegria de gordo: fazer os outros engordarem. Não descansava até ver seu marido, Hugo, se entupir com tudo o que pudesse ser engolido, mastigado e transformado em farofa na boca.

Colecionaram viagens. Sonhos. Dinheiro. Quilos.

Cada vez maiores, tinham dificuldade até para dormirem juntos. Era impossível mover-se na cama. A mesma posição até o dia seguinte.

O fato estressou o casal. As brigas tornaram-se frequentes e, o que antes era apenas um hobbie de pombinhos apaixonados, transformou-se em vício.

– Elisângela, cadê minhas tortas? – gritava, já sentado na mesa. Prestativa, largava a sessão de bolos de chocolate em frente à televisão para preparar a iguaria preferida do marido.

– Cadê, Elisângela?!

– Tô fazendo, já vai!

Eram só essas perguntas? “Onde estão as tortas?”, “E o almoço?”, “Vai demorar?”. E o amor que sentia por sua mulher? E a gratidão? Os afagos, os carinhos?

– Está aqui.

– De que é?

– Frango.

– Não tem azeitona, né? Você sabe que eu tenho alergia.

– Claro que não tem – respondeu, virando os olhos.

Hugo garfou-a sem dó. Mastigava com força, sujava-se inteiro. Parecia um porco. Terminou em poucos minutos.

– Gostou?

Um arroto. Foi essa a resposta. Elisângela entendeu como um sim.

Pouco tempo depois foram dormir. Deitaram-se bunda com bunda. A cama rangeu, encurvando-se e tremelicando num esforço sobrenatural para sustentar aqueles dois.

– Boa noite – disse Elisângela, corpo virado para a parede esquerda do quarto.

Hugo respondeu com um peido.

As cenas se repetiram constantemente: ordens, tortas, arrotos, flatulências. O carinho? Medido em garfadas. Os sonhos? Uma torta nova. O amor? Na panela.

Elisângela estava farta. Não queria mais se submeter a tais humilhações. Basta!

– Quero torta! – gritou Hugo sem necessidade, visto que Elisângela estava no mesmo cômodo que ele, sentada em frente ao sofá devorando um balde de frango frito.

A mulher respirou fundo. Não respondeu. Fechou os olhos e apanhou outra asinha de galinha, abocanhando-a.

– Quero torta! – repetiu, mais alto.

– Não precisa gritar – disse serena, chupando o osso engordurado – Estou do seu lado.

– Então faça logo, mulher – respondeu, ajeitando o guardanapo na gola da camiseta consumida pelas papas.

– Não vou fazer – foi seca.

Silêncio. Ficou com medo.

– Como é que é?

– Se quiser alguma torta, faça você mesmo. Ou peça pelo telefone.

Hugo bateu com força na mesa de vidro, trincando-o.

– Faça! – gritou – É a única coisa que você sabe fazer na sua vida! Mostre-se útil!

– Como é que é? – levantou-se imediatamente do sofá. O balde de frango frito aterrissou no tapete.

– É isso mesmo! E não me faça repetir! Deveria dar graças a Deus pelo marido que lhe paga as contas e que come sua comida!

Elisângela tentou responder, mas gaguejou.

– Agora vá logo! Estou com fome…

Abatida, andou em direção à cozinha. Pouco tempo depois, retornou:

– Aqui está…

– De que é?

– Frango…

Em pé, esperou o marido degustar o prato em pouquíssimos minutos.

– Gostou?

Arrotou.

Apanhou o prato e levou-o de volta para a cozinha.

Foram dormir. Deitados de costas um para o outro, bunda colada com bunda, Elisângela não desejou boa noite. Porém Hugo não se esqueceu de seu habitual peido noturno. O último, por sinal. Nem chegou a acordar.

– Uma tragédia – ouviu dos parentes e dos amigos no dia seguinte, durante o velório.

Causas mortis: ataque cardíaco.

– Era hipertenso – repetiu Elisângela, dezenas de vezes – e não cuidava da saúde.

Chegou em casa e perambulou o ambiente algumas vezes. Antes de sair da cozinha, jogou no lixo o vidrinho de azeitonas que, até um dia antes, estava lotado. E antes de dormir esticou-se, contente. Afinal, a cama agora era só sua.

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