O caso de Elisete

Elisete chega ao consultório do doutor Gerônimo, o analista. Foi direto ao ponto:

– Eu sou muito feia.

Ele concordou. Ela continuou:

– Eu sou tão feia que um dia me cederam um assento preferencial no ônibus achando que eu fosse deficiente. Mas não sou não. Sou saudável, muito bem obrigada, e não sofro nenhum tipo de problema que explique essa minha cara. A não ser o mau gosto dos cromossomos dos meus pais que Deus escolheu para compor meu rosto e moldar meu corpo. Eu acredito em Deus, mas às vezes acho que Ele tem um senso de humor muito diferente, entende? Sei que é pecado, mas dá até raiva… Olha a ironia: eu trabalhava num motel. O Love me Baby. Eu nunca entrei lá na vida pra bater qualquer outra coisa que não fosse o ponto. Na verdade eu nunca entrei em motel nenhum como cliente. Mas trabalhava em um. Ficava na guarita recebendo os hóspedes, entregando chaves, dizendo quais quartos estavam disponíveis, os preços… E imaginando o que o pessoal fazia lá dentro, entende? Eu gostava disso! Era o mais ativo que a minha sexualidade conseguia manter. Mas não sou virgem não. Sexo é bom e eu sei fazer, já fiz duas vezes. Mas é difícil encontrar um homem que ligue pra beleza interior. Isso me deixa tão triste… Porque eu me apaixonei tantas vezes… O último foi o Bruninho e é por causa dele que eu estou aqui. Bruno Bueno Silveira. Vinte anos, lindo… O cabelo meio loiro bagunçadinho, corpinho definido, um sorriso… RG número 571266778-8, Pálio preto modelo 2004… É que eu decorei de tanto que ele ia lá no Love me Baby. Sempre com a Estella, a namorada. Eu passava tanto tempo olhando a identidade dele… E mais tempo ainda imaginando aquele menino lá no quarto. Teve uma vez que não aguentei. Às vezes eu falava pra Mayara, minha colega, que ia ao banheiro, mas na verdade dava uma passada lá no quarto dos dois. Colocava a orelha na porta e ficava ouvindo tudo: a música, a cama rangendo, uns gritinhos, gemidinhos, umas falas assim meio picantes… Teve uma que me deixou muito embaraçada… Mas fiquei tão excitada! Era… Era… Ai, tenho vergonha, doutor. Posso dizer? Ok, era ‘isso, minha putinha, mais’ – (risos tímidos) –  Ai, me deu um calor! E uma inveja daquelas! Ai, doutor, eu daria tudo pra ser a putinha dele. Pronto, falei. Demorei um tempão pra voltar pra cabine. A Mayara tava meio brava, meio preocupada. Eu inventei que tive um problema com a lasanha de berinjela da janta. Ela acreditou. Mas não percebia que sempre que o Bruninho chegava com a Estella eu tinha que correr pro banheiro. Tipo, acorda amiga! Pensa um pouco! Aí… Bem… Aí aconteceu… Lá estava eu na cabine quando o Pálio dele imbicou. Ele abaixou o vidro e ficou olhando pra mim com uma carinha de menino levado, que queria aprontar.  Me cumprimentou. Eu respondi. E ficou rindo pra mim, expondo aquele sorrisão lindo branco, brilhante. Ai, meu Deus, me senti derreter, com uma febre gostosa.  Só que ele tava olhando pra mim de um jeito diferente, como nunca olhou antes. Tão… Penetrante – (risos tímidos) – Bem nos meus olhos… Bem… Nos meus… Olhos… Depois que entreguei a chave do quarto, ele engatou e, antes do carro sair, piscou pra mim. Meu Deus! Ele piscou pra mim! Piscou! O senhor entende? Lógico que aquilo queria dizer alguma coisa. E dizia: dizia que ele tinha atração por mim também. Que também me queria! Que também me amava! A Estella não estava com uma cara muito boa, parecia brava. Depois tudo passou a fazer sentido: quantos motéis existem nessa cidade? Mas ele só ia naquele, ainda que existam outros mais baratos! No que eu trabalhava, durante o meu expediente. Ele ia lá pra me ver, por minha causa! A Estella tinha percebido. Se eu percebi, como ela, que é a namorada dele, não percebeu? Por isso estava com a cara fechada. Não é óbvio, doutor? Eu contei isso pra Mayara, mas ela achou que eu estava viajando. Mas a Mayara não entende nada de amor. Eu entendo de sinais. E estava claro, ele me queria. Aí eu tive que agir, não é? O Bruninho é o amor da minha vida. Não podia perdê-lo. Então usei a desculpa da lasanha de berinjela novamente. Estava tão empolgada que tinha me esquecido que nem havia comido isso, tinha comido nuggets. Mas enfim, saí da cabine e corri até o quarto deles. Coloquei a orelha na porta. Dessa vez não ouvi nada. Nem música, nem cama rangendo, nem gemidinho, nem barulho do chuveiro. Nada. Óbvio, brigados daquele jeito me surpreendeu que não estivesse rolando uns gritos nem uns tabefes, isso sim. Ele não a amava mais. Porque ele queria ficar comigo, tocar o meu corpo, grudar o quadril no meu, experimentar o gosto da minha pele, sussurrar no meu ouvido e puxar minha calcinha de lado, me preencher… Ai, doutor… Aí… Bom, eu precisava saber o que estava acontecendo. Ou ter certeza que não estava rolando nada. Essas mulheres de hoje em dia são umas malucas. E se a Estella tivesse feito alguma coisa com o menino? E se ela fosse uma psicopata? Uma ciumenta desequilibrada? Não é porque ela é loirinha, bonitinha, bem-relacionada e namora um menino que tem um Pálio que não pode ser assassina. Lembra daquela Suzana Rich…É… Richtoten? Então! Eu tinha que entrar naquele quarto salvar o meu amor… Mas não podia abrir a porta, não é? Discrição é tudo. Então lembrei que um dia o seu Irineu, o zelador do Love me, falou que é possível subir no forro do telhado pelo almoxarifado e andar sobre todos os quartos e que, se ele quisesse, até dava pra ver o que os clientes faziam entre as quatro paredes pelas frestas da madeira do teto. Mas que ele era ético e não fazia isso. E casado. Foi minha ideia. Ge-ni-al. Corri pros fundos, entrei no almoxarifado, peguei a escada, posicionei-a direitinho e tirei a tampa do teto.  Estava escuro.  Com meu celular fui iluminando o caminho e tomando cuidado pra rastejar só naqueles pedaços de madeiras, que são bem firmes. Ouvi um monte de coisa e até cheguei a ver outras. Tinha até um rapaz que estava sozinho no quarto, sem ninguém mesmo. Tava lá, pelado e se masturbando vendo uns vídeos de sacanagem. Acho que era o moço do Honda. Enfim, não demorou muito pra eu encontrar o quarto do Bruninho. Espiei por um espaço e tive certeza: era ele mesmo! O próprio. Ele estava na cama com a Estela, encaixado nela. Ela deitada e ele sobre ela. Peladinho. Ai, doutor, que coisa. Aquela bundinha lisa redondinha e durinha se contraindo e a víbora da Estella com os braços envolvendo as costas dele e laçando as coxas do menino com as próprias pernas. Parecia uma aranha que envolve o que vai comer aos poucos, sabe doutor? Eu vi aquilo e fiquei aliviada por saber que meu menino estava inteiro. Mas também fiquei com ciúmes por não estar no lugar da Estella. Confesso que às vezes gostava de reparar no corpo dela. Ela não era tão magrinha quanto eu imaginava, tinha um pneuzinho. Os peitos dela eram meio caídos e balançavam muito, meio molengas. Ou seja, não devia nada pra mim. E eu era mais eu. E o Bruninho também. Tá ouvindo, doutor? Ah, sim, desculpa, pode continuar escrevendo. Então… Também fiquei com um pouco de dó dela. Deve ser difícil descobrir que seu namorado tá com o corpo em você mas com a cabeça em outra. De qualquer forma, continuei olhando, atenta. Vai saber o que essa menina era capaz de fazer. Até que chegou uma hora que ele parou de se movimentar e se desencaixaram. Ele ficou ajoelhado e arrancou a camisinha. Deu pra ver o… O… Negócio dele, doutor.  Que coisa, meu Deus! Olha, você tinha que ver, viu? Digo… Desculpe…  Mas o fato é que ele deitou do lado dela, a Estella se levantou e deitou sobre ele, só que ao contrário. Colocou a bunda na cabeça do Bruninho e enfiou a boca no negócio dele. Chama meia nove, sabe? Ele ficou lá, lambendo as partes dela, e ela chupando o treco dele. E eu ali em cima, espiando tudo, adorando tudo. A Estella às vezes tirava a boca do negócio do Bruninho e mexia mais pra baixo com a língua e às vezes com o dedo. Ele tremelicava a perna e dava uns gemidos. Ela também, e até mais alto. Porque teve uma hora que ele levantou bem o pescoço e enfiou o rosto bem no meio da bunda dela e também o dedo. Acho que era lá no… Não preciso dizer, né? A menina começou a gemer muito alto e só parou quando enfiou de novo a boca no treco do Bruninho. Aí foi ele quem começou a gritar e depois se contraiu todo e relaxou um pouco. O Bruninho continuou navegando lá pela parte de trás da garota, que estava meio de quatro. Então ela começou a gemer, a gemer, a gemer, a gemer, a gemer… E… Gemeu. Caiu pro lado, acabada e suada. Ficaram conversando baixinho. Então ela levantou e sumiu de vista, caminhou em direção ao banheiro. Eu fiquei só observando o Bruninho deitado, todo esticado na cama. O peito fortinho, a barriga definida… Tudo lisinho, sem nenhum pelo, nenhunzinho nenhum. O negócio caído pro lado, meio flácido, lambuzado.  Eu suspirei. Mas foi alto. Então eu congelei, principalmente porque ele percebeu o barulho e ficou procurando da onde ele vinha, desconfiado. Como eu já estava lá há muito tempo, fiquei imaginando que talvez a Mayara estivesse preocupada, pensando que eu morri no banheiro. Fui fugir, mas fiz um barulho. A madeira estalou. Travei. O Bruninho sentou, rápido. A madeira fez outro barulho grande. Senti ela começar a ceder para baixo. A porcaria da madeira estava quebrando, doutor! Desesperada, eu me mexi e acabei caindo em cima do forro. Aí foi aquilo que o senhor já sabe: não aguentou meu peso e arrebentou. Cai em cima da cama, quase em cima do Bruninho. Foi um barulho imenso. A Estella apareceu e soltou um grito tão forte que eu quase fiquei surda. E o Bruninho saltou pro alto, todo assustado. Os dois começaram a falar um monte de coisa, diziam que iam chamar a polícia… Mas o que mais me chamou a atenção foi o Bruninho dizendo que eu ia ver só, que eu tava ferrada e me mandando tomar no cu. Adorei a ideia. Pisquei pra ele. Ele me amava mesmo. No final fui levada pra delegacia e presa.  E agora eu tô aqui. Não deveria ter feito aquilo, eu sei. Minha família está arrasada e meu pai tão decepcionado. De fato, não era um bom emprego, mas o suficiente pra eu pagar minha faculdade e a conta do meu celular. E ficar perto do Bruninho. Acho que nunca mais vou vê-lo. Uma pena, nascemos um pro outro. Está sendo difícil, a comida aqui é horrível. Mas tento ver sempre o lado positivo das coisas. Pelo menos eu me fodi.

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