O açougueiro

O mais desavisado jamais perceberia que aquela porta branca espremida entre uma padaria e a loja de quitutes era um açougue. Mas não havia nada mais tradicional no bairro que o Açougue do Seu Paulo. Simples e folclórico.
– Dia, seu Paulo.
– Dia!
Era costumeiro. As pessoas poderiam deixar de cumprimentar a própria mãe em frente aquela porta, mas ninguém deixava de felicitar o bendito do seu Paulo.
– Que Deus lhe abençoe, seu Paulo! – exclamavam.
– Pelo visto o churrasco foi bom, então? – ele exalava cordialidade.
– O melhor! Obrigado! Não existe carne como as daí!
Simpático, seu Paulo recebia os cumprimentos exagerados com o mesmo bom humor de sempre, já conhecido desde que fugiu dos pampas e se instalou naquela rua pacata no princípio dos anos sessenta.
O segredo do sucesso? O corte.
– Essa aqui – apontou a um novo cliente embasbacado – é a minha varinha de condão – terminou, retirando um facão e exibindo-o com cuidado – A Gaúcha.
– É linda!
– E você não tem ideia do que essa belezinha é capaz de fazer.
Como todo bom mágico, Seu Paulo não entregaria o segredo em uma bandeja recheada de fatias de picanha temperada no alho torrado, rodeadas de linguiça apimentada e filezinhos de alcatra mal passada. A experiência lhe permitia aguardar certas artimanhas a fim de tornar o espetáculo ainda mais suculento, e alguns truques ainda mais gostosos.
Guardava a faca no estojo quando sentiu uma pontada no ouvido. Uma pontada aguda, irritante. Era como se o seu tímpano fosse cutucado por uma agulha e lóbulo da orelha puxado para baixo. Cerrou os olhos. Viu seu novo fã distanciar-se do balcão e tomar um rumo sabe-se lá para onde, trombando nela. Ela.
Ah, aquela mulher. Dona da voz mais irritante que seu Paulo tivera o desprazer de conhecer durante todos os seus sessenta e quatro anos muito bem vividos. O mundo poderia acabar, e a última coisa que seu Paulo teria certeza que ouviria antes da explosão final do Apocalipse seria aquela voz nojenta e estridente.
– Seu Paulo – disse, meio que gritando meio que apenas falando muito alto.
– Dona Ana – respondeu, coçando a orelha – A que devo sua honra? – perguntou, sem se interessar de fato com a resposta.
– Você insiste nas mesmas perguntas, não é seu Paulo?
– E você nas mesmas visitas…
Dona Ana ignorou e arrancou um papel da bolsa, colocando-o sobre o balcão. Seu Paulo conhecia aquele papel. A bendita Ordem dos Vegetarianos do Bairro.
– Eu não venho até este IML a céu aberto a bel-prazer, seu Paulo…
– Poupe-se.
-… Não me agrada nem um pouco pisar aqui dentro, respirar esse ar sujo de sangue e admirar essa paisagem horrorosa que você me proporciona…
– É só não entrar.
Dona Ana continuou a falar o mesmo sermão habitual, o que fez seu Paulo voltar à sua rotina de trabalho como se nada estivesse acontecendo. A mulher falava as mesmices de sempre, acompanhada das irritantes manias que carregava consigo, como o nariz de porquinho, o vestido de praia amarelo que cobria o corpo atarracado e os cabelos tingidos de loiro-verde que, de tão maltratados, pareciam uma peruca de palha. A perua era chata demais.
– … Por isso, seu Paulo, a Ordem já entrou com mandato para o fechamento desse seu estabelecimento imoral…
– Dona Ana – disse, após suspirar e jogar um enorme pedaço de maminha sobre o balcão. Gotas de sangue voaram no busto da mulher. Tinha sido de propósito – Com o perdão da palavra, mas já deve ser a vigésima vez que você aparece aqui com essa ladainha – falou, impaciente – E eu gostaria de saber se essa porcaria de Ordem, que só você faz parte, importuna todos os açougueiros da cidade ou eu sou o único que você pega no pé.
– Isso é uma causa, seu Paulo. Não é nada pessoal. O que eu quero é cortar o mal pela raiz!
– Pela raiz? – seu Paulo estava curioso.
– Eu vejo a maneira como você dissemina esse mal, induz as pessoas a devorarem essa carniça como se fossem selvagens…
– Tá bom, Dona Ana, com licença… – respondeu, impaciente. Apanhou o pedaço de maminha do balcão.
– Não faça de conta que não me escuta! – seu Paulo sentiu o braço ser puxado com um pouco de força.
– Por favor, Dona Ana, me solte.
– Escute o que eu tenho para falar – disse. Em seguida, gritou.
Aquele som! Aquele berro! Uma onda lhe invadiu as orelhas. Sentiu um corte no cérebro. Foi como se as sinapses entrassem em colapso. Os braços tremeram, as mãos fraquejaram, a boca secou. E a carne caiu ao chão.
O açougue ficou mudo por alguns segundos. Perplexo, seu Paulo não conseguiu se mover. Foi como se seu corpo estivesse preso a pesadas correntes. Deixou a vista agir por si própria e viu o pedaço de maminha estirado no piso de lajota.
Era tudo o que não precisava. Foi muito rápido. Viu Dona Ana apanhar o celular da bolsa. Fotografar a cena. Sumir rindo.
Correu para a peça de carne e a ergueu, rapidamente. Assoprou, tirou a poeira. Abraçou-a.
O dia seguinte veio com mais rapidez que o costume. Viu cartazetes colados nos postes, nos muros, na porta do próprio açougue. Todos estampavam a pobre maminha caída.
“É esse o lixo que você come” emplacava os papéis.
A freguesia diminuiu. Os clientes sumiram. O dinheiro evaporou.
Por mais que seu Paulo tentasse se explicar, ninguém o escutava. Ninguém acreditava na versão do bom e velho Paulo, o homem que saiu do interior do Rio Grande do Sul para vencer na cidade grande.
– Foi um acidente! Uma fatalidade! – gritava.
Via Dona Ana apontar o dedo e rir com força da sua desgraça.
– Seu Paulo, me perdoe – disse Dona Ana ao passar na sua frente – Mas contra fotos não há argumentos.
– O que você fez é maldade! – exclamava, com a fraqueza da derrota na voz trépida.
– O que eu fiz foi por um bem maior!
Bem maior? Ninguém deixaria de comer carne por causa do fechamento de um açougue! Bruxa! Covarde! Desgraçada!
-E escute aqui, de uma vez por todas, seu açougueiro falido. Eu acho ótimo tudo isso que aconteceu. Eu não aguentava mais a fumaça das churrasqueiras invadindo meu quintal, o cheiro de carne assada pelas calçadas e impregnando as roupas do meu varal! Essa gente reunida cantando até altas horas por causa das porcarias que você vende! – Dona Ana falava cada vez mais alto, como um político em época de eleição. Gesticulava os braços, rodava o dedo em riste – Seu Paulo, aceite: ficaremos bem melhores sem você!
Seu Paulo refugiou-se dentro do seu estabelecimento. Bateu a porta e trancou-a, com força. Tremia. Ele não merecia ouvir aquilo. Não mesmo.
Nunca mais foi visto na rua. Nunca mais ouviram notícias suas. O açougue nunca mais foi aberto. Seu Paulo tinha virado fumaça.
Foi Alberto, um dos inexpressíveis moradores daquela redondeza, quem o encontrou, anos depois, nesses incalculáveis percalços da vida. Era uma cidade pequena, no interior, quase na divisa com Minas Gerais. Faltava carne para o churrasco.
– Seu Paulo?!
– Grande Alberto! – respondeu, surpreso, atrás do balcão.
– Mas que maravilha!
– E o que lhe traz aqui?
– Comprei uma fazenda. E o senhor? Desapareceu, homem!
– É, resolvi mudar os ares… Você lembra…
– Claro…
– Pois é…
– Mas você sabe que a Dona Ana também sumiu, né?
– Bah! É mesmo? – perguntou interessado, depois de arquear as sobrancelhas.
– Depois daquele incidente. Fez um projeto para abrir um restaurante vegetariano que não chegou a sair do papel. Depois disso, nunca mais deu as caras. Evaporou.
– Ahnn… Creio que não esteja fazendo muita falta – disse sorridente e simpático.
– Ah, não mesmo – concluiu Alberto, seguido de uma espontânea risada – Aquela voz…
Ficaram ambos quietos. Seu Paulo limpou o facão em um pano. Percebeu Alberto vidrá-lo com saudosismo.
– Abandonou a Gaúcha?
– De forma alguma – disse, amável – Está ali – apontou para a faca cravada em uma tábua presa na parede atrás de si – Apenas a aposentei.
– Algum motivo especial?
– Fiz um churrasco particular de despedida com ela e resolvi deixá-la descansar. Seu último corte deixou-lhe praticamente cega. É uma guerreira. Agora só a uso para finalidades muito particulares, como enfeitar meu simples açougue. É como dizem: lugar novo, faca nova. Não é assim? – divagou, guardando o facão limpo numa gaveta.
– Praticamente cega por causa do último corte? – repetiu. Seu Paulo notou que Alberto estava interessado – A carne do boi não deveria ser das mais nobres, hein?
– Ah, não mesmo – respondeu, esbanjando um sorriso muito peculiar – Era a língua. E de uma vaca.

 

 

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