Metrópole

Segunda-Feira:

Igor estava sentado na cadeira de madeira lascada da sala 37 do prédio do cursinho. Já era meio-dia. Talvez fosse a desculpa que estivesse esperando cair do teto para levantar-se e voltar para casa; entretanto, havia combinado consigo mesmo, ainda sabendo que raramente cumpria suas promessas, que se empenharia mais para passar no vestibular daquele ano. E, conforme havia informado para seus pais, não tinha hora para voltar. E que não o esperassem para a janta.

– Saco de aula – resmungou.

Seu estômago roncava. Não entendia nada de Química, mas tinha certeza que sua necessidade fisiológica seria um prato cheio para o professor explicar ao restante da classe todas as intermináveis equações que ocorriam no ser humano quando se sente fome.

Levantou-se da cadeira e passou apertado pelo restante da fileira, praticamente colada com a da frente. Foi até o banheiro.

Olhou-se no espelho. Diria que estaria branco de fome, caso fosse claro. Todavia, sua pele mulata-seis-e-meia-da-tarde era refletida como um bege desbotado. Ajeitou os cabelos negros e encrespados por desencargo de consciência, pois sabia que eles não costumavam se endireitar exatamente como desejava. Cabelo duro fica do jeito que cresce.

Jogou água no rosto, examinou os dentes brancos e tirou da ponta do nariz um fiapo de tecido, o que o fez questionar durante a restante meia hora da aula de Química como fora parar lá.

A sineta tocou. Acabou a aula do cursinho na segunda-feira. Agora a missão seria almoçar e passar o restante do dia estudando para que pudesse ingressar na faculdade de Jornalismo no final do ano.

*

Igor tinha apenas almoçado, mesmo não considerando muito bem um cheeseburger e um refrigerante como um almoço. Mas, ao julgar pelo horário do dia e pela quantidade de dinheiro que havia na carteira, sim, aquilo fora uma refeição bem-vinda.

Mas, naquela hora, seu estômago roncava ferozmente; seus olhos quentes pesavam e sua cabeça, já vazia, flutuava em algum lugar distante demais da sala de estudos onde estava.

Chega de Getúlio Vargas. Chega de geopolítica. Ao inferno Camões e seus amigos marinheiros desbravadores. Olhou no relógio mais uma vez: nove e meia da noite.

Nove e meia da noite e a única coisa que havia comido fora um cheeseburger, um refrigerante e pedaços de duas barras de chocolate. Não há quem aguente. Juntou seu material, jogou-o dentro da mochila e partiu em disparada para bem longe daquele prédio. Não havia lugar em que mais desejava ficar senão sua casa.

O passar massante da tarde fora anestesiado, em certas partes, pela companhia que encontrara. Encontrara era um termo que Igor decidiu usar para enganar a si próprio, pois seguira Jéssica da lanchonete até a sala a qual ela escolhera.

Decidiu sentar-se na mesma mesa que ela ao acaso também, do mesmo jeito que fingiu não entender direito o que fora a Polaquinha e em qual parte da história entrava a Ilha dos Prazeres. Ouvir o ressoar da voz doce de Jéssica era, de fato, um motivo a mais para ficar até de noite estudando.

Os dois frequentaram o mesmo colégio, apesar de nunca terem ficado na mesma classe. Ambos tiveram insucesso no vestibular e Igor decidiu justamente o mesmo curso pré-vestibular que ela ao saber, por intermédio das fofocas que ouvira dos ex-colegas de classe, que Jéssica optara por aquele cursinho, mesmo sendo fora de mão e muito mais caro que os mais próximos à sua casa.

Ele sabia que o sonho dela era estudar Publicidade, sabia que era de Virgem e entendia de mapa astral e esoterismo, que tinham a mesma idade, que ela amava teatro, gostava de MPB, era compulsiva por chocolate e apaixonada, Igor nunca soube muito bem o porquê, por esquilos.

Ele sabia que Jéssica não fazia ideia que seu nome era Igor, que não tinha um estilo musical muito bem definido, que fosse de Aquário, que não via muita lógica em astrologia, que também gostava de teatro e que evitava comer chocolates para não que surgissem espinhas em seu rosto. Mas Igor não se importava.

Desconsiderando a grande probabilidade de acnes bordadas na bochecha, Igor comprou duas barras de chocolate e abriu a primeira. Abocanhou-a, deixando-a amostra de Jéssica, que escrevia compenetrada até ver o tablete com uma ponta faltando. Era sua isca e ela sua sereia.

– Quer..? – ofereceu Igor, tentando expressar que sua pergunta fora tão ocasional como estar sentado de frente para ela.

– Não, obrigada… – respondeu, simpática, rindo e mostrando seus dentes perfeitos. Seu sorriso salientou a sensual micro-pinta que marcava sua pele sedosa, próxima ao lábio superior no canto direito. Seu pequeno nariz pontudo também era marcado por uma pinta em seu bico e seu cabelo castanho-claro esvoaçava a cada sopro do ar-condicionado.

– Pode pegar, se quiser… – insistiu.

– Tá bom, vai… – disse tímida e ainda sorridente, arrancando um pedaço da barra e o abocanhando de uma vez, fechando os olhos e respirando fundo. Ela realmente gostava de chocolates.

– Você é a Jéssica, não é? – perguntou, deixando de lado sua tarefa.

– Sim, sou eu – respondeu, em um quê espantado.

– Jéssica Albuquerque.

– Isso… – ela respondeu, franzindo a testa – A gente se conhece da onde?

– Estudamos juntos – emendou – Não juntos na mesma classe, mas no mesmo colégio – prosseguiu ao ver que seu rosto expelia um enorme ponto de interrogação – Mesma série…

– Desculpa, mas eu não me lembro de você… – disse sem graça.

– Sou o Igor.

– Ah, o Igor! Igor Brandão?

– Não… Portela… Que nem a escola de samba.

– Ahhh… Prazer – ela esticou a mão e os dois se cumprimentaram.

– Então… Você quer prestar o que mesmo? – Igor perguntou, puxando assunto mesmo já conhecendo a resposta. Deixou com que ela falasse quase tudo aquilo que ele já sabia pois, mesmo sabendo que ela gostava de música brasileira, sua adoração por Chico Buarque, Elis Regina e Vinicius de Moraes era novidade.

– Ah, música velha então?

– Música boa – respondeu, guardando a caneta no estojo e com a boca cheia de chocolate da segunda barra.

– Ah, sim… Claro… Foi o que eu quis dizer…

A boca de Igor ficou vazia como se seu último som morresse ao vento. Viu, por trás de Jéssica, o surgimento da figura loura e espadaúda, olhos verdes e boca fina, emergir da larga porta de entrada da sala de estudos.

Celso Guimarães trajava sua tradicional camisa colada, estampada com listras horizontais que se revezavam em amarelo, branco e azul. Seu cabelo louro e fino era coberto por um boné apertado. Ele aproximou-se de Jéssica, cutucou sua orelha. A garota inclinou a cabeça, assustada com a repentina entrada de dedo em seu ouvido e, ao notar que era Celso o dono daquele indicador cumprido, sorriu, deixando Igor inerte.

– Oi, coelhinha – disse Celso. Igor também sabia que era assim, com esse apelido ridículo, que Jéssica era chamada por seu namorado desde pouco tempo depois da concretização do namoro dos dois, ainda no colégio.

– Oi, amor – ela disse, pouco antes de se beijarem. Igor assistia – Então… – disse Jéssica, após desgrudar seus lábios da boca de Celso – esse é o Igor.

– Opa, prazer! – disse, erguendo a mão.

– Oi… – respondeu com vagueza.

Jéssica ficou apenas mais alguns segundos sentada. Não demorou muito para Celso e ela irem embora.

Igor os assistiu partir após despedirem-se e tentou voltar suas atenções aos estudos, coisa que não aconteceu. Desde o momento em que Jéssica sumiu de vista com seu namorado, todas as frases lidas de sua apostila perderam prioridade em sua mente  por causa de sua paixão platônica. Jéssica Albuquerque era tão ou mais importante que Getúlio Vargas.

Eram nove e quarenta e três quando se sentou no banco do ponto de ônibus, não muito longe do curso, após tropeçar em um mendigo. Ele não o tinha visto.

Os carros corriam na avenida sem pudor, as luzes vermelhas, amarelas e azuis dos veículos cortavam a cidade escura, pipocando com frequência em seus olhos, tão frenéticas quanto o concerto de buzinas e freadas produzidas pelos protagonistas das ruas de São Paulo.

Ao seu lado, uma senhora com uma sacola em cada braço. Do outro, um senhor negro com uma bíblia em punho e, ao lado dele, uma garota estudante.

Olhou o horário novamente. O ônibus estava demorando.

Viu um rapaz magricela, cabelos espetados e olhos azuis, aproximar-se do ponto. Ele esfregava as palmas da mão, tremelicava as pernas e virava seu rosto de quando em quando para os lados. Deveria estar com frio. Igor estava.

O garoto passou a fitar o ponto, andando de um lado ao outro. Igor evitava olhar para ele, mas seus olhos insistiam em desobedecer-lhe, fitando-o de esguelha.

– Oi, tem horas? – perguntou o garoto.

– Dez pras dez – respondeu de sobressalto.

O clarão emergiu de longe e Igor reconheceu como sendo o farol alto do ônibus. Levantou-se.

O ônibus parou de frente ao ponto. As pessoas próximas, já de pé, formaram uma fila. Igor permaneceu entre o senhor da bíblia e a senhora das sacolas. O rapaz magricela foi para o fim.

Igor subiu as escadas, pagou a passagem ao cobrador, andou no corredor do veículo e sentou-se ao lado de um homem gorducho, coberto por um casaco empacotado.

Tinham poucos passageiros, o que o fez estranhar. Além de seu vizinho de assento, apenas um homem sentado ao fundo, um casal de amigos e uma mulher pouco à frente.

Colocou a mochila sobre as pernas, apoiou a cabeça no balaústre, fechou os olhos e suspirou fundo.

– Ahhh… – gemeu com os olhos semicerrados. Avistou o rapaz magricela perto da catraca, suas mãos ainda sendo esfregadas uma contra a outra. Ao seu lado, um homem negro, beiças inchadas e cabelo curto encarrapitado, cochichava em seu ouvido. O rapaz magricela acenava com a cabeça, seus olhos azuis fixos em alguma coisa pregada no chão.

Igor virou o rosto e viu o outro lado da calçada se mover. O ônibus já estava saindo. Reparou em uma mulher de seios fartos, parada na esquina.

Um grito cortou sua capacidade de apreciar os peitos da pedestre. Ele assustou-se abruptamente, o coração palpitando acelerado, vidrando seus olhos no homem negro que segurava uma arma e gritava avisando que ele estava lá para assaltá-los.

– Eu quero todo mundo quieto! – falava, apontando a arma para cada passageiro petrificado nos assentos do veículo.

Seu coração saiu do lugar e passou a bater descompassado no meio de sua garganta. Seus braços tremiam e seu corpo suava. O homem agasalhado ao seu lado suspirara alto e agarrara o assento.

– Ele vai passar recolhendo o que vocês têm! É só isso! Não tô afim de matar ninguém hoje!

O rapaz magricela puxou a carteira da mulher sentada à frente de Igor, que tremia. O homem negro andava pelo corredor apontando sua arma para todos os presentes enquanto bradava ameaças.

-… Não quero saber de desculpas, é pra passar tudo senão eu volto atrás e mato mesmo…!

– Vai, você! – disse rapaz ao chegar perto de Igor – passa.

– Eu não tenho nada… – disse, erguendo as mãos para cima.

– O relógio, passa o relógio!

Tremendo, Igor desafivelou o relógio do pulso e entregou ao garoto magricela. Reparou nos olhos azuis trêmulos do rapaz. Ele agarrou o relógio jogou-o na sacola.

– Vai, mais!

– Não tenho…

– Você aí, velho, vai pegando a carteira…

-… É pra passar o que tem, não tô de brincadeira…!

– Senhor, tenha piedade de nós! – rezava em voz alta o senhor da bíblia.

– Cala a boca!

Igor começou a sentir-se zonzo. O rapaz magricela parecia mais nervoso que ele, o homem agasalhado ofegava com violência e tossia com força, colocando a mão no peito diversas vezes. O casal de amigos encolheu-se num canto, o homem amparando a amiga que chorava desconcertada. O senhor da bíblia prosseguia com suas orações, enquanto o assaltante retribuía gritando, arma apontada para ele.

– Velho do caralho, Deus não está aqui para te salvar!

– Pecador!

O rapaz magricela apanhou os pertences do homem agasalhado e ainda o celular de Igor e então rumou para o assento do casal que se amparava.

– Passa! – gritou.

– A gente não tem nada…

-… Passa senão eu mato você e sua namorada…!

– Ó Senhor, livrai-nos do mal!

– Vai!

– Livrai-nos, Senhor, livrai-nos de todo mal…

– Cala a boca!

Igor ouviu o assaltante engatilhar sua arma, sentindo sua alma esvair-se do corpo junto com seu coração que agora pendia pelos lábios. Uma manta de gelo emburlhou seu corpo, seus pelos eriçaram e a tontura o atingia com mais força que outrora.

Ouviu um rebuliço repentino e virou-se para trás, instintivamente. O homem, sentado ao fundo, levantou-se abrupto com uma pistola em mão e um distintivo em outra. Era um policial.

– Acabou, chega! – disse o policial – Larga essa arma senão quem vai acertar as contas com Deus será você!

O assaltante fora pego de surpresa e ficou sem reação. Por um momento, Igor reparou, o bandido ameaçou erguer os braços mas relutou e continuou firme, apontando a arma para o senhor da bíblia.

– Atira em mim, coxinha, e quem morre é o velho – respondeu frio.

O policial continuou parado, mirando no assaltante. O rapaz magricela ficou estático. A senhora das sacolas, de olhos fechados, rezava. A garota estudante chorava em silêncio.

O ônibus começou a perder velocidade, fazendo com que o assaltante gritasse para que o motorista prosseguisse.

– O sinal tá fechado! – gritou o cobrador.

– Foda-se!

Igor espiou pela janela o disco vermelho do semáforo aproximar-se e pessoas tomando a iniciativa para atravessar a rua. O motorista buzinou com força, ecoando o som estridente da buzina mesclado com os gritos dos pedestres, mas não chegou a ultrapassar o sinal. Freou com força.

O assaltante, desprevenido, voou em função da inércia, disparando o gatilho do revólver por reflexo.

Igor acobertou a cabeça instantaneamente, engasgando-se com um grito que não chegou a sair. Ouviu mais gritos agudos e atiçados da mulher e um gemido forte de solavanco que julgou ser do velho da bíblia.

Não demorou mais que um segundo após o primeiro disparo para que Igor ouvisse o segundo. A gritaria chorosa se intensificou.

Encolhido em seu banco, Igor viu a arma do assaltante deslizar pelo corredor de alumínio do ônibus. Foi o último som que ouviu.

Silêncio. Olhou para seu lado esquerdo e viu o homem agasalhado encolhido no vão entre um par de assentos e outro. Ofegava.

Virou os olhos mais para cima e viu o cobrador levantar-se. Também havia se encolhido.

Igor levantou devagar. Trêmulo, apoiou as mãos no balaústre para não cair ao chão. Não conseguiu e bateu os joelhos no piso.

Viu, jogado como um saco velho cujo dono resolvera abandonar ao notar que não lhe seria mais útil, o assaltante estirado, morto, no chão.

O homem do casal amparava a mulher que, vermelha, soluçava. Ambos permaneciam agachados.

O garoto magricela, tremendo, encostou-se num banco, as mãos erguidas para o céu.

Igor conseguiu se levantar. Atônito, reconheceu o policial erguer-se com a arma apontada para o rapaz magricela, mãos e roupa manchadas de sangue. Também jogado ao chão, ao lado do oficial, o senhor da bíblia jazia sem vida, morto com o livro sagrado na mão.

Que Deus o tenha, pensou. Havia ainda a terça-feira.

 

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