Clementino

Clementino acordou no cortiço de Nenê
Que era sujo, emporcalhado
Fedorento e mal tratado
Como próprio Clementino havia de ser.
Era mais um dia de trabalho
Na labuta de enxadada
Desgastante sua jornada
Que nem mais sentia dor.
Clementino era magro cor da terra
Seu suor pendia à testa
Pele grossa a enrugar
Que queima a alma sem pudor.
Nasceu ao sol pungente
Onde não se cresce gente
Em berço de solo seco,
Sempre soube o que era dor.
Maceta aqui, maceta ali
E foi durante a macetada
Conheceu Maria Dalva
A menina recalcada o fazia retrair.
Clementino se deixou apaixonar
Levando um tiro e um sopapo
E uma pisada em pleno calo
Da doença que é o amor.
Tomou coragem
E pra não perder viagem
Uma caixa de bombom
Clementino encomendou.
Chegando nela
Ele se apresentou
Embasado de ternura,
Nosso herói se colocou:
“Moça bonita, o que fazes tão sozinha?
Se quiseres companhia
E uma tarde de alegria
Clementino, aqui estou!”
De cima a baixo, a rapariga o reparou
E como quem esmaga um sapo
E limpa o pé em qualquer trapo
A menina retrucou:
“Olhe pra si, desleixado capial
Uma moçoila como eu
Que sozinha nunca está
Não se mistura com um tal.”
Por trás dela, um mancebo apareceu
De mansinho e fino trato
Com olhos e nariz de rato
Clementino emudeceu.
O mancebo era o Mário João
O rapaz era sinistro
Tinha mais pelo no umbigo
Que amor no coração.
Amedrontado,Clementino se encolheu
Implorou um padre nosso
Mas Jesus estava ocupado
E Ele não o atendeu.
Levou três socos e depois foi despojado
Num terreno abandonado
Catarrento e humilhado,
Agradecendo o milagre de não ter sentido dor.
Pôs-se , assim, a caminhar.
Sua vontade era encontrar
De qualquer forma algum lugar
Que pudesse celebrar
A sua vida de apatias
Sem qualquer perspectiva
Do que era boa história
Do que era boa vida.
Andou mesmo que coxo
Sem critério e com esforço
E avistou com olho roxo
Ainda que de um jeito torto
O dizer “Clementino, venha cá!”.
Era o bar a o chamar
O lugar a se instalar
A cadeira de madeira
Repetia “Clementino, venha cá!”.
Bebeu, cantou, dançou
O andarilho Clementino
Numa gingada estapafúrdia
Sem demorar se embriagou
Tomado por uma coragem jururu
Atirou-se na represa
Pondo fim a sua passagem
De enxadas e pedradas
Não sem antes agradecer
A Jesus Cristo Salvador
Por nunca ter sentido dor.

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