A voz

Então era verdade.

Não era alucinação. Havia uma voz ali que não era mais fruto de suas experiências com ácidos na faculdade de Química. Ele decidiu chamá-la de voz. A Voz.

A plateia era grande. Poderia ser qualquer um. Qualquer pessoa que esperasse o pobre professor virar suas costas para o restante da classe, qualquer um, no mais completo sentido da palavra. Mas quem?

O menino do boné azul? Não, ninguém tão magro tem uma voz tão grave. O gordo que vive de boina? Não é o tipo de voz que um gordo tenha, muito menos os que usam boina.

Oras, mas quem? Ele sabia que a classe não era pequena. Turmas de cursinho são gigantescas. A Voz que chegava em seus tímpanos não era aveludada. Era rouca, encorpada, grave. E ele também não saberia identificar como sendo, de fato, masculina. Qualquer um poderia engrossar suas cordas vocais e proporcionar um som erudito como aquele. Menos gordos que usam boina, isso já era pedir demais. Poderia ser, inclusive, a menina que triscava os lábios empastados de gloss e mexia nas pontas dos cabelos incansavelmente. A mulatinha simpática, por que não? A voz era simpática de certa forma. Decidiu dar o ultimato a si mesmo, o teste final. Naquele dia, ele descobriria, custe o que custasse.

Ele abriu a porteira da sala e, com passos curtos, correu até o tablado. A gritaria era intensa. Durante o caminho, ele observava meninos e meninas, estranhos e estranhas. De quem seria a Voz?

Subiu no palquinho. Datou a lousa, escreveu seu nome – não custava lembrar – e a matéria do dia. A classe ainda conversava como se as pessoas estivessem tentando se fazer ouvidas dentro de uma taberna em noite de reencontro da uma turma de vikings.

Apanhou o microfone. Bom dia, disse.

Começou a falar coisas que só puderam fazer sentido ao ouvido da classe pois o texto era decorado, e havia décadas. Ele pouco se lixava se seus alunos estavam entendendo aquilo que era pronunciado, se havia nexo, se havia alguma coisa que prestasse. Ele queria era apanhar a Voz. Ele mirava nos olhos da multidão, esperando que algum olhar tremesse ao cruzar o seu e, assim, entregar-se finalmente.

Já em silêncio, a classe ouvia o que o professor falava, talvez nem notando a intenção dele. O professor virou de costas. E, cortando um silêncio séquito, ele ouviu.

Ela se fez presente. Sem pedir licença, a Voz rasgou o véu da atenção e explodiu em seus tímpanos:

– Delícia de bunda!

Virou o rosto rapidamente e, disfarçando as feições sem graça, com um jogo de cintura adquirido a força com o passar dos anos, fez a caretinha de sempre, colocou a mão no joelho e deu a rebolada infalível, causando os risos usuais.

Droga, pensou. Não havia sido daquela vez. Chegou a pensar que certas perguntas não precisam de respostas. E que o convite, de novo, ficaria para outra hora.

 

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